domingo, 27 de julho de 2014

Reflexões de Verão ( Il Amore)

Há poucos (sendo rigoroso, três) dias, realizei o meu último acto público de avaliação (felizmente, uma oral de melhoria) enquanto aluno da Licenciatura em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Há que admiti-lo: nesta altura, e apesar de poder ter corrido melhor, sinto-me realizado a nível académico. É claro que tenho planos de prosseguir a minha educação, mas este é, parece-me, um dos vários momentos da vida que, como alguém me disse recentemente, temos a sensação - indescritível - de termos, finalmente, alcançado um objectivo, derrubado uma barreira. E durante estes quatro anos, o que posso dizer é que o ponto de partida está nos antípodas do ponto de chegada. Das várias lições que a necessidade de trabalho constante me trouxe já vos dei conta noutro post, pelo que não me parece relevante repetir-me nesta sede. Grosso modo a mensagem é a de que, com esforço, dedicação, perseverança e - é claro - uma pontinha de sorte, todos os nossos objectivos podem efectivar-se.

Chegado a este ponto, o último ano ensinou-me uma lição porventura muito mais valiosa. A de que nada - mas mesmo nada - é definitivo. Se fizerem scroll, verão abaixo algumas palavras minhas acerca do assunto que mais tinta fez (e fará sempre) correr (quer tinta física, quer, como aqui, tinta electrónica): o - inevitável, arrebatador, desolador, inebriante - amor. A minha experiência até ao momento mostrou-me que, no que a este tema em específico diz respeito, é pura e simplesmente impossível ser feita alguma afirmação com grau de certeza absoluta. Há alguns posts atrás (rectius, no meu post Reflexões) afirmava lapidarmente que «o amor verdadeiro é uma utopia». Como exemplar de ser humano que sou, reality has proven me wrong.

O dado basilar a ter aqui em conta é que a vida é feita de momentos. E, num momento, todas as ideias que considerávamos estabilizadas no nosso interior sofrem um "abanão", fazendo com que coloquemos em questão tudo aquilo que até então defendêramos. Quantos de nós não viram já um hopeless romantic a realizar juras de ódio ao amor, ou um eterno romântico a cair no profundo calabouço do desgosto amoroso? Quanto a mim, o último ano mostrou-me o quão maravilhosa é a tão procurada e poeticamente venerada sensação de amar, realmente, alguém.

Não pretendo doutrinar acerca do conceito e forma de reconhecer quando, onde e porque é que tal acontece. A minha juventude não mo permite, e a intersubjectividade neuro-psicológica torna-o insusceptível de ser generalizado. Mas o «bicho» da escrita introspectiva faz-me partilhar a minha visão das coisas. E o que terei eu a dizer sobre o assunto?

A minha primeira impressão é a de que é algo arrebatador. A sua beleza estonteante, a sua elegância, o seu aprumo, a sua graciosidade e, especialmente, a sua (incessantemente) cativante genuinidade terão decerto o efeito de chamar a atenção de inúmeras pessoas. Eu, apenas mais uma dessas pessoas, contudo, não conseguia (e não consigo) deixar de ter sempre a mesma reacção a tamanha demonstração de beleza (quer fisica quer - oh, e acima de tudo! - espiritual), e que é a de nada fazer, senão observar, absolutamente maravilhado. Sempre ouvi dizer que existem imagens, momentos, sons, sonhos, que contém uma beleza tal que a sua simples presença tem o condão de nos prender, qual amarra, ao maravilhoso aroma da sua virtude. E a realidade é que esses momentos, em que, numa expressão muito cunhada por OSCAR WILDE, de forma «deliciada», contemplamos de forma silenciosa alguém que amamos, mesmo que na mais mundana das situações, sentimos em nós a alegria, felicidade e realização de cantar, pular, correr e dançar! tudo, num simples olhar.

Este sentimento tem também, e como não poderia deixar de ser, um cunho marcadamente intersubjectivo. Algo que se me afigura como inigualável ou - sequer - inimitável é algo tão surpreendente como redundante: a genuinidade de duas pessoas se darem, no sentido de partilharem o seu íntimo. De facto, não podemos ficar senão estupefactos quando temos a dádiva de ter alguém que, não só é uma inspiração para nós (fazendo-nos aspirar a ser um dia tanto quanto o amor que nutrimos nos permita ser; o que, no caso, será um estado de absoluta optimização,em termos económicos, diria eu), como nos permite, e se permite, a mais completa e mais inebriante forma de relacionamento: a partilha sem restrições, contenções, ou sequer receios. Diria que uma das grandes buscas da nossa vida é a de (necessariamente, poucas) pessoas com as quais tenhamos a sorte de atingir o ponto óptimo de  realização e felicidade; de conforto e confiança. E, mais uma vez, as palavras são curtas para descrever a felicidade que brota do meu corpo, e que me atrapalha as mãos enquanto escrevo este intrinsecamente incompleto texto. Direi que nunca pensei ser possível entregar, de tal forma, um espelho para o meu interior, e especialmente de forma tão intuitiva. Não que tenha receio de não ser a atitude correcta, porque sei que a é. O que me maravilha é a verdadeira beleza elementar da simplicidade e naturalidade com que sei que - com um olhar, uma palavra, um toque - os nossos pensamentos, ideias, e vontades, se cruzam, se abraçam, se juntam; para, de forma conjunta, enfrentar todos os obstáculos.


Chego a este parágrafo a pensar que não está tudo dito. Chego a este parágrafo a pensar que tudo ainda estaria por dizer. Chego a este parágrafo concluindo, porém, que se trata de uma tarefa inglória. Amar é primeiro que tudo sentir, e o sentir, a meu ver, extravasa em grande medida a (minha) capacidade de expressão. Essa realidade não me deixa menos feliz. Gosto de pensar que no preciso momento - de brincadeira, de zanga, de contemplação, de irritação...- em que os nossos olhares se cruzam, e se fixam mutuamente, essa mensagem, portadora do quantum (quiçá indeterminável) dos sentimentos que nutrimos um pelo outro se encontram e, mais importante que isso, se compreendem, num  consenso mudo, mas sem que por isso não esteja repleto de significado.

Apetece-me dizer tudo. Mas direi duas palavras: Obrigado, Amo-te.

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